Boletim NEPAE-NESEN

 Diagnóstico de Enfermagem: Qual a Abordagem no Novo Currículo?[1]

 Isabel Cristina Fonseca da Cruz[2]

 Introdução

            Gostaria de inicialmente agradecer o convite da comissão organizadora do III Simpósio Nacional sobre Diagnósticos de Enfermagem (Fortaleza, Ceará) para participar desta mesa-redonda. O tema proposto é instigante uma vez que pretende discutir a abordagem do novo currículo a partir dos diagnósticos de enfermagem.

            O novo currículo mínimo de graduação em enfermagem foi aprovado em dezembro de 1994. E neste momento várias instituições de ensino superior estão desenvolvendo a nova grade curricular.

            De modo sintético, o currículo novo compreende disciplinas relacionadas às ciências biológicas (morfologia, fisiologia, entre outras), ciências humanas (antropologia, sociologia, entre outras), fundamentos de enfermagem com 25% da carga horária do curso (história, deontologia, ética, epidemiologia, bioestatística, saúde ambiental. semiologia e semiotécnica, metodologia da pesquisa), assistência de enfermagem com 35 % da carga horária (conteúdos teóricos e práticos sobre clínica, cirurgia, psiquiatria, ginecologia-obstetrícia e saúde coletiva) e administração em enfermagem com 15% da carga horária. Está previsto ainda o estágio supervisionado de dois semestres letivos.

            Diante desta síntese sobre o novo currículo, pergunta-se quando e como o diagnóstico de enfermagem pode ser introduzido enquanto conteúdo e habilidade a ser desenvolvida.

            Diagnóstico, Prescrição e Resultado: Tripé das Ações da Enfermeira

            Entre os diversos instrumentos que podemos  utilizar  para  o exercício profissional, temos o processo de enfermagem. O processo de  enfermagem    o  método  preconizado  para  implementação  da assistência. Ha uma tendência mundial em estabelecer como tripé da prática profissional o diagnóstico, as prescrições e os resultados dessas prescrições. Essa tendência caminha para a construção de taxonomias de enfermagem que organizam os fenômenos com os quais lidamos profissionalmente

            Em 1989, o International Council of Nursing (ICN) aprovou uma resolução sobre o desenvolvimento de um projeto para a criação de uma Classificação Internacional da Prática de Enfermagem. O objetivo deste projeto é organizar os fenômenos relacionados ao diagnóstico, prescrição e avaliação dos resultados da assistência de enfermagem (CLARCK; LANG, 1992), uma vez que vários países no mundo estão desenvolvendo ou utilizando algum tipo de classificação.

            No Brasil por exemplo utiliza-se mais o código internacional de doenças, tendo em vista o atavismo do ensino e da prática de enfermagem aos problemas médicos. No final da década de 80, as enfermeiras brasileiras passaram a tomar contato com classificações de enfermagem, tais como a da NANDA sobre diagnósticos e a de BULLECHEK; McCLOSKEY (1992) sobre prescrições.

            O Brasil, enquanto membro do ICN, está engajado neste projeto, tendo inclusive participado em uma de suas reuniões consultivas, onde se discutiu a prática de enfermagem em Atenção Primária em Saúde. O projeto, de uma forma indireta, tem propiciado uma reflexão sobre o status destas atividades em nossa prática e no nosso ensino profissional.

            A inserção dos diagnósticos de enfermagem no novo currículo depende do reconhecimento por parte do corpo docente de que há uma dificuldade em organizar  e  sintetizar  os  dados significativos sobre o cliente e nomeá-los de uma forma que seja própria e especifica para as enfermeiras. A partir de então todas as disciplinas deverão adotar uma estratégia dirigida para a formulação dos diagnósticos de enfermagem e o para desenvolvimento da habilidade sobre  julgamento clínico no seu campo de prática.

            Na literatura profissional, verificamos que a sistematização da assistência, incluído nessa sistematização o  diagnóstico  e  a prescrição, inicia-se no Brasil com as pesquisas da Dra. Wanda  de Aguiar Horta. O modelo conceptual de  Wanda  Horta  ainda  hoje  influencia fortemente, tanto positiva quanto negativamente, as enfermeiras. O aspecto negativo é que  a implementação do  seu  modelo  conceptual não observa a  correlação  de  suas  principais  fases,  ou  seja,  histórico, diagnóstico, prescrição e resultado. Esta  ausência  de correlação é, em nosso entendimento, um dos  fatores  responsáveis pela  resistência  entre  os   profissionais   à   utilização do método do processo de enfermagem enquanto um instrumento de trabalho a ser utilizado em seu cotidiano profissional. Consequentemente, cria-se uma barreira .à inserção do diagnóstico nas práticas curriculares, ainda que este outro modelo busque justamente corrigir o problema de base.

            Preocupa-me profundamente que permaneça no novo currículo a situação já cristalizada no velho, a saber: o diagnóstico, enquanto etapa do processo de  enfermagem,  ou não o integra totalmente ou é substituído por sinais,  sintomas  e equipamentos, entre outros elementos (inclusive a doença), nas (poucas) instituições onde    a sistematização   das   atividades   de enfermagem.

            Contudo, a identificação e a conseqüente classificação sobre o que  as enfermeiras fazem  quando  cuidam  de clientes individuais  ou  grupos  são componentes críticos para o desenvolvimento dos  conhecimentos  de enfermagem (CRUZ, 1993). Persistir no modelo biomédico não representa retrocesso, simplesmente burrice.

            Diagnóstico, Prescrição e Resultado no Novo Currículo

            No momento em que escrevo este trabalho, desconheço que alguma escola de enfermagem no Brasil tenha adotado uma classificação de enfermagem como um dos eixos para o desenvolvimento de seu currículo. Sei que individualmente alguns professores em São Paulo, Paraíba e Rio de Janeiro têm implementado a classificação da NANDA em seus campos de prática e disciplina. Entretanto isto não significa, por exemplo, que todo o conteúdo da disciplina tenha sido construído predominantemente com base nos diagnósticos. Quero dizer com isso que eles ainda ocupam o mesmo lugar da “assistência de enfermagem”, ou seja, o lugar de apêndice nos conteúdos sobre as patologias.

            Assim, falar sobre diagnósticos no novo currículo é um exercício de futurologia. Ao olhar em minha bola de cristal vejo que fazer histórico, fazer diagnóstico, presvrever e avaliar o resultado da prescrição serão as ferramentes indispensáveis para o exercício profissional. Portanto, do primeiro ao último período, do ciclo básico ao profissional, todas as disciplinas, todos os conteúdos todas as práticas serão em função da habilidade em fazer o histórico (entrevista e exame físico), fazer o diagnóstico de enfermagem, prescrever e implementar os cuidados e avaliar o resultado destes cuidados.

            Um exemplo. Para que nos servirá semiologia e semiotécnica de enfermagem? Penso eu que para ajudar a coletar dados subjetivos e objetivos relevantes que nos ajudem no processo de julgamento clínico de formulação dos diagnósticos de enfermagem. Caso contrário, ficaremos cada vez mais instrumentalizadas para formular os diagnósticos médicos e não sendo médicas colecionaremos mais um conhecimento inútil.

            Nas disciplinas do bloco de assistência de enfermagem a abordagem será principalmente pelos diagnósticos de enfermagem ao invés de ser (apenas) pelos diagnósticos médicos. Assim, os professores das respectivas disciplinas utilizarão os diagnósticos de enfermagem enquanto roteiro para orientar e redefinir os conteúdos teórico-práticos, identificarão os diagnósticos conforme o seu nível de aplicabilidade de forma que possam ser ensinados desde os períodos iniciais, implementarão estratégias que desenvolvam o julgamento clínico.

            Cabe observar porém que este processo exige paralelamente, ou melhor, inicialmente preparo e compromisso por parte do corpo docente. Há que se pensar na organização e na sequência dos diagnósticos dentro do currículo, assim como as respectivas prescrições e tratamentos de enfermagem.

Há que se pensar também na escolha dos livros textos. Aliás este é um aspecto que merece uma discussão à parte. Os livros textos, em sua maioria traduções, baseiam-se atualmente em classificações de diagnósticos e prescrições de enfermagem. Contudo, os professores das disciplinas que os indicam parecem não ter opinião definida sobre o tema. Isto é, no mínimo, curioso.

            Para finalizar o exercício de futurologia, prevejo que o currículo de enfermagem será realmente considerado novo se buscar ser inovador. Um currículo inovador deve calcar-se nos conhecimentos de enfermagem, principalmente, nas habilidades fundamentais da profissão (diagnóstico-prescrição-resultado), no cliente/família/comunidade em seu processo de bem-estar/mal-estar, formando um profissional autônomo,  liberal e humanista.

Considerações Finais

            Novos instrumentos estão sendo propostos para  implementar  o processo de trabalho em enfermagem. Estes instrumentos, dos  quais destacamos o diagnóstico e a prescrição, ajudam-nos a  identificar as respostas da nossa clientela aos problemas de saúde e a  tratar (ou ajudar a clientela a se tratar) estas mesmas respostas.

            O novo currículo de enfermagem que está sendo implantado neste momento surge como uma oportunidade de reflexão sobre os rumos que devemos tomar. A incorporação destes instrumentos é fundamental, mas não deve ser feita de forma isolada, individual. Deve ser resultado do reconhecimento de que eles são simplesmente essenciais para se fazer Enfermagem.

Referências Bibliográficas

BRASIL, leis. Portaria  n# 1721 de 15 de dezembro de 1994.  Dispõe sobre o currículo  mínimo de  enfermagem Diário Oficial da União, n. 238, Brasília, 16/12/94, p. Seção 1, p.1981.

BULECHECK,  G.M.;  McCLOSKEY,  J.C. Defining    and validating nursing  interventions. Nurs Clin North Am, v. 27, n. 2, p.  289-99,  1992.

CLARCK,J; LANG, N.  Nursing's next advance: an international classification for nursing practice. Int Nurs Rev,  v.  39, n. 4, p. 109-12;28, 1992.

CRUZ, I.C.F. da   Diagnósticos de Enfermagem.  Estratégia  para  sua formulação e validação. São  Paulo,  1993.  157p.  Tese  (Doutorado) - Escola de  Enfermagem, Universidade  de  São  Paulo.

NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION   Taxonomy  I  - revised 1989: with official diagnostic categories. St.  Louis, 1990.



[1] O trabalho foi elaborado para apresentação em mesa-redonda, mas não foi apresentado por razões que preferimos não comentar.

[2] Doutora em Enfermagem. Titular do Deptº de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade Federal Fluminense. Professora da Pós-Graduação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora do CNPq. Coordenadora do NEPAE- Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Atividades de Enfermagem. Telefax (55-021) 709-3522. E-mail: mqfcruz@nitnet.com.br

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